Nathalia e Bento: Diabetes gestacional e parto natural

Nathalia e Bento: Diabetes gestacional e parto natural

No dia vinte e um de fevereiro, terça-feira,  acordei com bastante disposição e com um sentimento de que aquele seria “o dia”: meu pé direito não estava inchado e eu teria uma consulta com a minha obstetra no fim da tarde.

Pela hora do almoço, Tiago me enviou a playlist do parto que ele já estava há 9 meses pra fazer… Acho que ele também estava com o mesmo sentimento que eu.

Pouco antes de Tiago chegar pra me pegar eu resolvi fazer as últimas fotos da Dona Pança e fomos para a consulta.

Como eu desenvolvi diabetes gestacional, sabíamos que era melhor se o Bento não demorasse muito para nascer. Além disso, quatro dias antes, durante uma ultrassonografia de acompanhamento do peso do Bento descobrimos que havia uma diminuição na quantidade do meu líquido amniótico.

Diabetes gestacional é uma condição que acontece quando a mulher apresenta altos níveis de glicose durante a gravidez. Traz poucos riscos maternos, mas aumenta a chance de alterações bioquímicas no bebê após o nascimento, além de maior chance de complicações no parto pois o ele tem maior risco de ter o peso acima do normal.

Quando o líquido amniótico (líquido que circunda o bebê dentro do útero) está diminuído, é necessário uma monitorização mais rigorosa da gestação. Apesar de este achado não significar diretamente algum prejuízo na nutrição ou na segurança fetal, é um dado que, associado a outros, pode indicar necessidade de indução do parto.

Naquela consulta conversamos muito: eu, Tiago e Dra. Quésia e decidimos tentar uma indução do parto mais natural através do descolamento de membranas. O procedimento foi realizado através de um exame de toque e achei totalmente indolor. A propósito, eu já estava com 4cm de dilatação neste exame! Faltavam só 6 cm para o parto acontecer.

A indução do parto é um procedimento realizado para que a mulher entre em trabalho de parto e tenha um parto vaginal. Através de estímulos, naturais ou medicamentosos, o útero começa a contrair, o colo se dilata e o parto acontece. A indução do parto é realizada quando, para melhor segurança da mulher e do bebê, a gravidez precisa ser finalizada e o parto precisa acontecer.

O descolamento de membranas é realizado através de um exame de toque vaginal, por um profissional de saúde (médico ou enfermeiro).  Consiste na separação digital das membranas fetais do segmento inferior do útero, com o objetivo de estimular o corpo a entrar em trabalho de parto. Além da ação mecânica sobre o colo do útero, o procedimento também estimula a síntese de prostaglandinas, hormônios que agem dilatando o colo do útero e propiciando sua dilatação.

Combinamos de esperar 48hs para meu corpo entrar em trabalho de parto naturalmente. Caso isto não acontecesse, por causa da diminuição do líquido e da diabetes, pensaríamos numa indução com medicamentos. Ao final da consulta, ela recomendou que eu viesse pra casa relaxar ou que fosse a um bom restaurante. Sim! Ela me liberou da dieta e até me deixou tomar um vinho!

Os medicamentos mais comumente utilizados para a indução do parto são: prostaglandinas e ocitocina sintética. O uso de um ou outro tipo de medicamento para a indução do parto depende da avaliação do colo do útero, que é realizada no momento de início do procedimento.

Como meu sexto sentido não falha, disse à médica que ainda naquele dia nos falaríamos, um pouco mais tarde. Sai de lá às 18:30h, sem dor e empolgada para preparar uma massa e tomar um vinho!

Durante a ida para casa, senti três cólicas bem interessantes.  A médica havia me alertado de que eu poderia ter uma cólica, mas não havia me dito a intensidade dela…

Fomos ao mercado mas eu não consegui sair do carro, pois a tal cólica ficava mais “interessante” a cada vez que ela vinha… Tiago rapidamente comprou o que faltava e fomos pra casa. Ao chegar em casa escolhi o vinho e já fui preparando o jantar entre uma cólica e outra.

Cada vez que ela vinha eu tinha que me sentar, esperar passar para só depois voltar a cozinhar. Decidi ligar pra Bel, minha doula, para saber se a tal da cólica que a Dra. Quésia havia dito era uma “coliquinha” ou uma cólica mesmo… Sim, eu ainda não tinha me tocado que eram as contrações, pois eu sou muito resistente a dor.

Terminei o jantar e me sentei para comer. Tomei mais um gole do vinho, a cólica se intensificou de uma maneira muito forte e minha ficha caiu que eram as tais contrações. Tiago falou pra eu comer rápido entre uma contração e outra e ligou pra Bel. Ela tentou acalmá-lo e pediu pra ele me colocar no chuveiro e contar quantas contrações eu teria. Tiago ligou pra ela dizendo que já eram 6 contrações fortes em 15 minutos. Ela recomendou que ele ligasse pra Dra Quésia.

Neste momento Tiago pediu à Paty, uma amiga e vizinha, para subir e nos ajudar. Eu estava de toalha em cima da cama quando Tiago me passou o telefone: era a Dra. Quésia. Perguntei a ela como seria a tal cólica que eu poderia ter. Nem me lembro da resposta que ela deu: larguei o telefone pois a dor estava num patamar tão forte que eu não conseguia nem mais falar.

Chegamos na maternidade às vinte e duas horas. Dra. Quésia me recebeu com um abraço super gostoso e acolhedor. Em seguida encontrei Bel, que já estava a preparar seus apetrechos de Doula.

A partir daquele momento eu, segura do que eu queria e me sentindo segura por estar com a minha médica e minha Doula, me entreguei às contrações. A cada uma delas eu tinha a certeza de que estava chegando a hora de ter meu filhote nos braços.

As contrações foram acontecendo em um espaço de tempo cada vez mais curto. Massagem, carinho, afago e palavras de coragem vinham da Bel, da Dra. Quésia e do maridão. Em um determinado momento eu pedi que fosse realizado o exame de toque. Lembro que ela me perguntou se eu tinha certeza de que isto era necessário e eu disse que sim. Me deitei na cama e senti meu corpo tremendo, numa descarga de adrenalina. Ela fez o exame de toque e então, com um super sorriso no rosto ela disse que eu já estava com dez centímetros.

Na mesma hora ela pediu para que a Paula tirasse uma foto minha, pois segundo ela eu estava com uma cara ótima para quem estava com 10cm. Daí ela e a Bel me explicaram que as contrações iriam mudar o ritmo é que logo viriam os puxos. Até então minha bolsa não havia estourado.

O exame de toque é realizado durante o trabalho de parto para se conhecer qual a dilatação do colo do útero, através da inserção de dois dedos do profissional (médico ou enfermeiro) na vagina da mulher. Em partos fisiológicos, é realizado em média a cada quatro horas.

Dez centímetros é a dilatação máxima do colo do útero. É quando termina o primeiro estágio do trabalho de parto, o estágio de dilatação, e se inicia o segundo estágio do trabalho de parto, o estágio de expulsão. Neste momento as sensações mudam e a mulher passa a sentir pressão na pelve, por causa da descida fetal que acontece no canal do parto.

Puxos são forças involuntárias que a mulher faz no momento do nascimento do bebê. São os puxos que fazem o bebê descer no canal de parto até sua saída pela vagina.

Fomos para o chuveiro mas eu senti muito frio. Bel até conseguiu esquentar a água, mas mesmo assim eu quis sair daquele lugar. Fomos para o bloco cirúrgico, que nada se pareceria com um lugar frio e gélido que eu imaginava. Elas prepararam tudo com muito carinho para que o ambiente ficasse acolhedor para o meu momento: havia música, meia luz, tranquilidade e muito amor! Tiago e Bel estavam comigo o tempo todo e isso confortava meu coração.

De fato, como elas haviam falado, as contrações mudaram e quando elas aconteciam, vinha uma vontade imensa de fazer força então me sentei no banquinho de parto. A minha bolsa ainda não havia estourado, eu queria que ela estourasse naturalmente. Os puxos eram fortes e intensos.

Em um determinado momento, eu me levantei e mais uma vez pedi anestesia. Sim, eu pedi por umas duas ou 3 vezes, já no expulsivo! A Bel e a Dra, Quésia me explicaram que a parte mais difícil e mais dolorida (fase de dilatação) já havia passado e que agora seria mais tranquilo. Eu estava de pé e resolvi sentar no banquinho. Neste momento a bolsa ela estourou naturalmente, como eu desejava.

O trabalho de parto tem três fases: (1) Fase de dilatação – quando ocorre a abertura do colo do útero; (2) Fase de expulsão – quando ocorre a descida do bebê pelo canal de parto e o nascimento e (3) Nascimento da placenta.

A partir do momento que a bolsa estourou, foi tudo rápido e muito intenso. Eu no auge do “meu momento” fui tendo noção que a hora de ter o Bento em meus braços estava se aproximando. Tiago mudou de posição, Dra. Quésia colocou as luvas, que a Dra. Ana Luíza, a pediatra, se aproximou e ficou ali pertinho. Então, de repente, a Bel anunciou: Coroou! Ele é cabeludo!

Foi tudo muito rápido, pelo menos pra mim que estava no meu transe particular. Lembrei da explicação sobre o círculo de fogo na hora em que ele estava acontecendo no meu parto. E então fiz uma força louca até que elas disseram que a cabecinha dele já havia saído. A partir daí tudo foi mais rápido ainda.

Na hora que a cabecinha do bebê distende a saída a vagina, a mulher tem uma sensação de queimação na pele do períneo, como se tivesse um “círculo de fogo” naquele local. Um ardor e um calor intenso. É o sinal de que o parto está de fato acontecendo naquele momento.

Cin Bento nos meus braços pude sentir o calor do corpinho dele no meu, as mãos de Tiago nos envolvendo e um chorinho leve e calmo. Sim, ele chorou pouquinho, como se dissesse: oi mamãe, estou aqui.

Por cima dele colocaram um pano quentinho. Mas mas o calor da sua pele em minha pele eu não vou esquecer nunca. Ficamos ali um bom tempo nós três, não sei precisar quanto, para mim pareceu uma eternidade, como se o mundo tivesse parado.

Quando o cordão ficou branquinho e parou de pulsar, foi lindo ver Tiago cortando o elo que nos uniu por trinta e oito semanas.

Ah! Outra coisa super importante, pra mim e para a vida do bebê: Bento mamou na primeira hora de vida dele! Nossa “hora de ouro” foi especial, sem pressa e com muito carinho e respeito da equipe toda.

Na primeira hora de vida o bebê deve ficar no contato pele a pele com sua mãe, por isto esta hora é chamada de golden hour = hora de ouro.

Meu parto foi lindo, foi emocionante! Nunca me senti tão poderosa, tão dona de mim. Eu sei que a dor foi intensa, mas não me lembro quão intensa ela foi. A perfeição é tanta que na hora que recebi o Bento em meus braços. Não havia mais dor e nem a lembrança dela. Naquele momento só havia amor.

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