Marcella e Luísa: tentativa de VBAC2 e outra cesária com 10 centímetros

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Meu relato de parto começa há 10 anos atrás. Aos 21 anos fui surpreendida com um teste positivo de gravidez. Em meio a um namoro a distância, morando em outro país, uma faculdade chegando finalmente ao fim e vivendo o meu grande sonho de viver pelo volei. Bom, havia muita coisa em minha cabeça e pesquisar sobre partos não era uma delas. Aliás, sinto que há dez anos atrás não se falava tanto sobre isso, ou simplesmente eu estava focada em outras coisas. Como contar pra família, pros amigos, pro meu técnico, como lidar com o olhar de decepção das pessoas que eu amo, como colocar quase 3 anos morando fora em duas malas e voltar pro Brasil, o que fazer no Brasil, o que fazer com o nosso namoro… bom. A primeira obstetra que me indicaram eu fui, e segui a risca o que ela dizia. Sem questionamentos. Em nenhum momento conversamos abertamente sobre o parto no consultório. De repente era o dia de marcar a cesárea. Porque? Uma circular de pescoço que sabe-se lá se realmente existia. Um telefonema alguns dias antes da data marcada a obstetra me falou que o parto teria que adiantar. Aquela jovem de 21 anos não percebia seu lugar protagonista no nascimento da sua filha. Eu não me sentia em posição de questionar ninguém. Ainda sentia uma certa culpa que me acompanhou por muito tempo por engravidar naquelas circunstâncias. E Larissa nasceu num parto cesárea eletivo (pela médica).
O tempo passou e chegou a segunda gravidez. Agora sim planejada, casada, formada… quando desconfiei do positivo, voltei na mesma médica. E seguimos com os primeiros exames. Na sequência outro positivo. Que alegria! Minha irmã também estava grávida! Segunda gestação e seguimos o mesmo caminho, com a mesma médica. Lembro de me sentir melancólica naquela gravidez, lembro de começar a questionar a minha obstetra, lembro de pensar em trocar de médica, lembro de externar esse desejo e não ter muito apoio pra fazer isso. E lembro de viver o pior dia da minha vida, grávida da Alice: o dia que meu pai se foi… um suspiro pra continuar escrevendo. Um nó na garganta…

A segunda gestação foi difícil, mas um difícil diferente da primeira. Fui surpreendida por enjoos intensos, episódio de vômito frequentes e uma tristeza sem explicação. Mais uma vez, nunca conversamos abertamente sobre parto no consultório. No fundo eu sabia que a médica encontraria suas razões para a cesárea. Mas eu não tinha forças para mudar o rumo daquela história…

A terceira barriga chegou! Mais planejada e desejada do que nunca. Há 4 anos atrás eu vivia uma gestação difícil, a perda precoce do meu pai… havíamos decidido que seria nossa última filha. Contudo, o desejo de mais uma criança começou a bater forte. Sabe quando vc se derrete vendo qualquer bebê na sua frente? Era assim que eu estava… eu ouvia a maternidade me gritando, me implorando mais uma alma para cuidar! Procuramos saber das nossas possibilidades após uma vasectomia e optamos pela FIV! Um canhão de hormônios no meu corpo, um procedimento um pouco invasivo, mas extremamente eficaz (pelo menos no nosso caso!). O positivo veio logo. Que alegria! Decidi, obviamente, a escrever a história de forma diferente. Pesquisei sobre partos respeitosos, e logo cheguei no instituto villamil. A ideia era ir em vários obstetras até encontrar o perfeito. Nem precisei, na primeira consulta já sabia que seria ela, a Dra. Renata. Logo no primeiro dia conversamos sobre o parto e foi maravilhoso ouvir que, apesar das duas cesáreas prévias, eu poderia tentar um parto normal, respeitoso, em que eu fosse ouvida, em que o melhor pra minha família aconteceria. A escolha do parto impactaria não só meu vínculo com a Luísa, mas meu retorno para cuidar das outras crianças em casa. Eu queria viver aquela experiência. Eu sabia que não seria fácil, mas eu tbm sabia que era o melhor pra todas as minhas filhas.
Ao longo das consultas eu percebi algo interessante. Não é somente o parto normal que pode ser humanizado. Há infinitas maneiras de ter uma cesárea respeitosa tbm. Por um lado eu ficava triste de nao ter vivido isso anteriormente, por outro, feliz de ter a oportunidade de mudar o rumo.
Não foi uma gestação fácil. Muitos enjoos, vômitos.. e dessa vez eu sentia ainda mais dificuldade de carregar a barriga. Seria a idade mais avançada? Talvez. As semanas iam passando e nenhum sinal que Luísa chegaria em breve. Decidimos descolar as membranas para “incentivar” o parto. Programamos um FDS mais relax pra ocitocina chegar e fazer o seu trabalho. No mesmo dia, eu e meu marido saímos pra jantar sem as crianças. Dormiríamos fora de casa, só nós dois. Bom, o jantar não Chegou a ser jantar. Antes de pedir o prato principal fomos embora. Eu estava desconfortável e uma dor na região da barriga me levava ao banheiro toda hora. Rs.. fomos pro hotel. Avisei a dra Renata, a Thaís e a Lili como me sentia. Elas me orientaram a tentar descansar, que era sinal que teríamos uma noite intensa pela frente. Eu estava muito feliz! Estava acontecendo! Conseguimos dormir um pouco e acordei com contrações bem fortes. Eu tinha certeza que eram as contrações do parto, apesar de nunca as ter sentido. Eu ainda era eu neste momento! Heheh. Lembro de misturar dor e alegria de um jeito bem gostoso. Meu marido dava as notícias para a grupo da família e eu sabia tudo que acontecia ao meu redor. Avisei a enfermeira Lili e a doula Thaís que eu estava com muita dor, beirando o insuportável. Resolvi medir as contrações no aplicativo e elas duravam quase 1 minutos e não me davam 2 de descanso. O aplicativo me mandava ir pra pra maternidade o mais rápido possível e, já sem lugar, eu queria ir tbm! Elas chegaram no quarto do hotel e fiquei feliz em vê-las apesar de não saber se consegui abrir um sorriso naquele momento. Eu já estava com 6cm de dilatação. Estava evoluindo rápido e isso era ótimo. No caminho pra maternidade eu estava com muita muita dor. Acho que foi nesse momento que parei de curtir. Eu mal conseguia andar. Eu me apegava no meu mantra “vai passar” mas a sensação é que não passava. Não sei como, cheguei no quarto. Olhei pra banheira e instintivamente mergulhei ali. Lembro de flashes a partir de então. Lembro de segurar muito forte o bruno. Muito! Lembro de ouvi-lo dizer, vai nascer 3h! Olhei o relógio e era meia noite. Nuncaaaa eu conseguiria suportar até as 3h! NUNCA! Não podia ser.

Uso de óxido nitroso no parto

Lembro de ver a Dra Renata entrar, lembro de alguém dizer: quando a obstetra chega é que está quase. Lembro de implorar por analgesia! Eu faria qualquer coisa por uma dose naquele momento. Eu estava imersa em dores tão profundas que eu não me reconhecia mais. Eu sabia que só poderia recebê-la no finalzinho do trabalho de parto em razão das cesáreas prévias. Conversamos disso várias vezes no consultório. Mas eu simplesmente não conseguia mais suportar! Olhava pro Bruno e implorava pra ele fazer alguma coisa. Não sei o que eu esperava, sei lá, que ele tocasse o terror até conseguir a maldita analgesia, que ele pegasse escondido.. não sei! Eu não suportava mais! Mas suportei por mais uma hora, duas.. e as 3h da manhã chegamos a 9cm! Finalmente! Finalmente! Eu cheguei até as 3h! Agora estava quase mesmo. Recebi a minha tão desejada analgesia. Adormeci ou delirei? Não sei.. vi minha mãe conversando comigo coisas sem nexo, vi meu corpo distante passeando por um lugar bonito (Valle da Mata). A segunda obstetra chegou. Comemoramos os 10cm! Ouvi novamente: quando a segunda médica chega é pq vai nascer. Não sei por quanto tempo eu dormi, sei que acordei com dor. As contrações pareciam ter voltado mais intensas, mas eu as sentia apenas no lado esquerdo. Parecia que elas estavam concentradas num único ponto agora. Todas juntas! Muita dor… muita dor… lembro da voz doce da doula Thaís me convencendo que eu era forte. Mas eu não era, eu não estava suportando mais. Me disseram que ia acontecer a qualquer momento. Eu queria estar feliz, queria parecer feliz, soltei o cabelo pra despistar, mas eu não sentia que estava chegando. Me mandavam fazer força, eu fazia, muita, mas no fundo elas pareciam em vão. Eu não sentia a famosa “vontade” de empurrar. Eu empurrava pq queria que aquilo acabasse. Olhava a janela e o sol estava nascendo. Eu já tinha desistido de tentar adivinhar que horas a Luísa nasceria. As pessoas falam que a mulher sabe parir, que deveríamos confiar no nosso corpo. Eu me culpava, pq eu não estava suportando? Pq eu não estava conseguindo? Pq? Pq? A pediatra entra. Eu ouço: agora vai. Mas não.. o cenário não mudava. A analgesia já tinha ido embora. Dra Renata sugeriu que tentássemos o balão extrator. Tentamos. Uma.. duas… sei la quantas vezes. Pessoas entravam e saíam do quarto. Falavam entre si, mas eu não conseguia concentrar e entender. A dor me consumia. A Thaís tentava ameniza-lá sem sucesso. Bruno em pé, com os olhos cansados, tentava me acalmar. Eu estava nervosa. Triste. Pq eu não conseguia parir? Eu pedi mais analgesia.. implorei. Pouco antes de recebê-la Dra Renata veio me dizer que já estávamos passando de 4h do período expulsivo. Em algum
Momento lembro da Lili dizer que os batimentos da Luísa caíram. Na sequência eles voltaram ao normal. Parecia que realmente as coisas não iam muito bem. Ouvi a palavra cesárea. Eu realmente não tinha conseguido. Concordei rapidamente. Subi na maca em direção ao bloco cirúrgico. Aquelas luzes, vozes, pessoas, tudo borrado na minha frente. Aquela dor.. intensa! Longa! Avassaladora! Eu não conseguia nem empurrar mais, eu só tentava sobreviver a elas. Muita dor. Eu lembro da última contração, segundos antes da anestesia para a cesárea. Eu gritava, apesar de ter jurado que não seria aquelas mulheres escandalosas para parir. De repente… a dor cessou. A anestesia estava no meu corpo. Me deitaram. O anestesista ao meu lado me encorajando e me acalmando. Eu não poderia negar que ao meu lado havia uma equipe foda. Mas tbm não conseguia me convencer que eu era forte e determinada. Eu me lembro de desabafar a chorar. Eu só pensava: não consegui! Não consegui. Aos poucos meu choro foi cessando, Bruno colocou John Mayer nos meus ouvidos e fechei os olhos. Quando decidi abri-los vi meu marido assustado. O bruno nunca se assusta. Nunca o vi ter medo de absolutamente nada. Há doze anos ele é meu Porto Seguro. Sou eu quem sinto medo, nunca ele. Mas seus olhos entregavam. O parto normal não deu certo e a cesárea também parecia que não estava dando. Ouvi um: vai nascer. Vi as mãos do Bruno irem em direção ao pano que me impedia de assistir. Ele sabia que eu gostaria dr ver minha filha nascer. Todos sabiam. Estava no meu plano de parto. Mas o pano não saiu. Pq eu não poderia ver? O que estava acontecendo? Não sei se em segundos ou minutos.. ela se aproximou de mim. Não me recordo como ela chegou, mas Luísa estava deitada e mamando em meu peito. Finalmente eu tive o direito de vivenciar Nossa golden hour. Finalmente eu senti a felicidade invadir meu corpo. Pude abraçá-la e toca-lá já que, pela primeira vez, meus braços não estavam amarrados durante minha cesárea. Não foi uma cirurgia rápida ou simples. Senti o ar me faltar algumas vezes. Mas a cesárea nos salvou. Aquela bebê gigante não encontraria seu caminho sem ajuda da ciência. Ouvi dos médicos envolvidos e de todas as enfermeiras que nunca viram um recém nascido tão grande. Minha pequena gigante! Vencemos o parto. Não foi como sonhamos, mas não importa. Foi como deveria ser. Eu não sou mais a mesma desde aquela louca experiência e Luísa, tão pequena, com hematomas na cabecinha, mostrou que veio ao mundo pra exalar sua força! Tão pequena e já cumprindo seu propósito.

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